A Terceira Morte*



Fotografia de Irina Priohdk


Sem precisar o que seria a perda da infância, mergulhou no reconhecimento da segunda morte, quando viu a mãe estendida sobre o cimento. Como caindo na realidade crua, de olhos que a espreitavam, abandonou a casa e inaugurou sua terceira morte para conseguir a salvação, talvez.

O banho fora interrompido com a água vermelha invadindo o piso branco do banheiro. Quis gritar, mas segurou os lábios para não assustar a mãe que estava ali perto. Em sobressalto fechou o chuveiro e observou que a cor mais intensa causava-lhe um medo ainda maior. Era puro sangue a escorrer, como rio, que sem temer o percurso deixa fluir as águas. Um estranhamento percorria-lhe o corpo, agora, frio e trêmulo. Onde estava a menina que há pouco se olhava no espelho com os traços da infância preservada, abriu novamente o chuveiro, até que o sangue que se espalhava foi entrando pelo ralo, e ela pôde retornar do transe que passou a persegui-la. Agora era uma moça, tinha que admitir, ainda que a contragosto. Diria à mãe, decerto, a ela nada omitia. Tocou o seio, ainda em botão, que começava a despontar. Nunca havia sentido aquela presença de forma tão avassaladora. Demorou-se ali, até que ao sair do banheiro, ainda assustada, se deu conta do silêncio da casa. Onde estava a mãe? Àquela hora já estaria chamando-a para que ela colocasse a mesa do almoço. O padrasto chegaria em breve, com seus gritos, querendo comida. Esqueceu por um minuto o vermelho-sangue. Vestiu-se e começou a perscrutar na casa a presença da mãe, com certo acanhamento. Diria, era fato. A mãe não estava na cozinha, embora ali, a chaleira desse sinais de exaustão na água que fervia. Fechou o fogo e foi imediatamente ao quintal. Novamente o susto, o medo, o sangue escorrendo. A mãe estendida sobre o cimento e a peruca que usava largada fora da cabeça. Não segurou os lábios. O gato a acudiu e, como não parava de gritar, não demoraram os vizinhos a invadir a casa. Com o gato nos braços, recolheu a peruca. A mãe estava morta, sabia. Novamente, a imagem a persegui-la. O vermelho se juntando ao assoalho. A mãe nunca saberia. Estava pálida, imóvel, indiferente. Abraçou fortemente o gato ao lembrar-se do padrasto que era rude e tinha um olhar fixo que a molestava. A mãe o sabia, e a protegia da presença dele. Aquele pensamento lhe provocou arrepios e lágrimas que escorregaram sem pedir licença, vermelho-sangue. Não demorou  para o padrasto adentrar o quintal como bicho acertado por uma lança. Contorcia-se. Sem que se aproximasse do corpo, chutou a mangueira em seu tronco grosso, proferiu umas palavras indecentes, amaldiçoou o dia. Saiu desesperado em busca de alento. Os vizinhos prepararam o corpo. Vestiram-na de branco. A roupa de festa. O corpo da mãe, agora no centro da sala, rodeada de velas, flores e orações. O padrasto bêbado, as piadas indecentes.

Depois do enterro, as portas fechadas, à noite. O cheiro de álcool a penetrar em todos os cômodos da casa, a luz escassa, o olhar comprido do padrasto, o vermelho a persegui-la. Soube-se presa. Escondia o olhar no fundo de si. Atormentava-se. A imagem da mãe, indiferente. O padrasto, cambaleante, na cozinha, engolindo ovos crus, deixando a gosma escorrer pela boca. Minutos depois, o pavor. O padrasto, invadindo o quarto. A imagem do sangue no assoalho, a mãe morta, a aproximação…

Quando o olhar já tocava a intimidade da menina-moça, o gato eriçou o pelo e saltou nos olhos do padrasto ferindo-lhe com as unhas afiadas. A fúria do padrasto não a deteve. Alcançou o ferrolho da porta, atropelou o medo. A mãe não fora indiferente.


*Conto selecionado no Concurso de Literatura da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) do ano de 2019, com resultado publicado em 2020. 

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