A Parteira


Fotografia por  Mona Eendra 

A velha enterrava coisas na cabeça da menina, havia noites longas de amargura nas palavras que ela, à beira da noite, ia debulhando.
- Dália teve dez infames. Nenhum se criou bem. A tal de Glauba, que ajudei a pôr no mundo, mal afloraram as regras ficou de bucho cheio e agora esta aí, se acabando de trabalhar pra sustentar a filha. Trabalha como uma burra de carga, lavando a roupa suja dos ricos desse fim de mundo; povo besta que não tem muita bagagem pra deixar de herança e fica de soberba. Pobre é assim: vive a comer os restos do mundo. A velha cuspia suas filosofias e a menina cochilava – isso tudo para esta não fazia diferença.
A velha, como já não escutava direito, costumava falar alto e, na pressa, gaguejava e se engasgava com a saliva grossa, que, costumeiramente, alcançava a menina que dormia. A pobre criatura acordava assustada e a velha abria uma risada.
No momento em que ia levantando os bancos para entrar em casa, apareceu João do Bar, saindo do escuro da noite, olhos esbugalhados, assustado como um bicho fujão, para chamar a parteira; única da cidade.
A velha se apressou, trocou a velocidade da língua pelo movimento dos pés. Entrou em casa acompanhada de um toco de vela, pegou sua bacia de alumínio - herança da avó - a tesoura afiada, um vidro de banha e se pôs a correr sob protestos:
- Esse menino não tinha hora melhor para apontar, seu João? Hora torta para uma mulher como eu, já cansada das pernas.
A parteira de muitos anos só esquecia suas maledicências quando se voltava  a aparar os meninos; isso lhe restituía a vida. Não raro lembrava das palavras da avó: “Esse ofício é a herança que te posso deixar”. Assim, muito cedo, acompanhando a avó, fez-se parteira. Guardava muitos choros no ouvido.
A casa estava a léguas dali, mas os passos rápidos dos dois diminuíam a distância. A chegada da parteira deu um alívio à esposa de Seu João do Bar e os trabalhos de parto começaram, sob gritos estridentes de dor.
Quando as dificuldades do nascimento surgiram, a parteira se espantou ao perceber, pelo toque na barriga, que eram dois, os rebentos.
A mulher gritava, e, na casa do João do Bar, homem estimado, começou um frenético entra e sai, ainda na madrugada. As mulheres corriam do quarto para a cozinha, preparando a água quente e os panos limpos, sob as ordens da parteira, que não se afastava do quarto. Os homens tomavam pinga, às custas do João do Bar, e faziam suas apostas sobre o sexo da criança.
A manhã já se apresentava, e a mulher estava a se extinguir em forças. As dores eram mais profundas e o olhar experiente da parteira registrou a palidez intensa de Bibi, como era chamada. O susto a fez interromper o trabalho para ir à sala pedir aos curiosos que rezassem, pois diminuíam a cada instante as possibilidades de um bom parto.
Lá fora, além das orações e frases como: “sangue de Cristo tem poder”, a Chica do Arame dizia: “Vai dar certo, cumpade João, a mão dessa aí nunca erra!”. João do Bar não sabia das coisas de reza, mas mexia os lábios acompanhando as orações cada vez mais altas.
No quarto, o primeiro alívio. Apontou a primeira cria, segurada pelas mãos hábeis da velha parteira que mediu em dois dedos a distância da barriga da criança e cortou o cordão umbilical. Duas batidas fizeram o menino chorar, esbanjando a força dos pulmões.
As orações cessaram, o pai invadiu o quarto, mas foi obrigado a se retirar, pois ainda havia uma vida naquela barriga."Tem mais um pra nascer, Seu João, retire-se”!
O trabalho recomeçou: mais água, mais pano limpo e a tesoura sendo preparada com cachaça para cortar mais um umbigo. A mãe já não respirava direito, quando nasceu o segundo menino. Ouviu-se da sala uma comemoração capaz de aumentar a oferta de pinga.
A parteira invadiu a sala, apinhada de gente, com os recém-nascidos nos braços, enrolados num pano, exibindo-os como um troféu.
Os copos de cachaça encontraram-se no ar, e ouviu-se gritos invadindo toda a sala. O pai não se aguentava de felicidade, pegou os meninos e entrou no quarto, seguido pela parteira, para ver a esposa, que daquele mundo havia se despedido.




3 Comentários

  1. Mais um conto maravilhoso!! Li como se estivesse vendo as cenas,os personagen tão conhecidos para os que viveram no sertão cearense. Parabéns, querida 👏👏👏

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  2. Mais um conto maravilhoso. Li como se estivesse vendo as cenas e conhecesse os personagens. Parabéns, querida 👏👏👏👏

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  3. ao menos parte desse conto a parteira já li antes, ao menos é essa impressão que tenho, impactante

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